O problema que eu tinha no guarda-roupa (e na cabeça)

O problema que eu tinha no guarda-roupa (e na cabeça)


Quem dera meu guarda-roupa me levasse pra Nárnia...
Quem dera meu guarda-roupa me levasse pra Nárnia…

Quando pensei no que queria colocar como desafios pra mim mesma em 2015, uma das primeiras coisas foi ter menos preguiça de me arrumar. Sim, eu adoro maquiagem, adoro cuidar do cabelo e pintar de cores pouco convencionais, mas quando chego no meu guarda-roupa me torno o exato oposto disso.

Detesto ter que pensar no que vestir, detesto comprar roupa e sapato, tenho calafrios só de ouvir falar em festa e ter que fazer alguma produção mais elaborada. Sim, surto numa loja de cosméticos, perco a noção de tempo, quero levar tudo, adoro zapear atrás de novidades… mas se a loja for de roupas e sapatos eu desanimo totalmente.

Pensando a respeito disso mais profundamente, percebi que está muito relacionado ao fato de que não gosto muito do meu corpo. Revirando mais um pouco as memórias, notei que veio desde muito cedo. Quase sempre me vesti com a ideia chamar a menor atenção possível.

É uma reação inconsciente, se você não gosta de algo, tenta esconder, né? E acho que foi daí que construí muito da minha imagem visual sem perceber direito. E foi assim que, ao longo dos anos, meu guarda-roupa virou um abrigo de cores sóbrias e peças básicas. Quase tudo preto, branco, bege, azul marinho ou cinza, com pouquíssimas variações. Tenho algumas peças coloridas hoje em dia e me sinto A OUSADA FASHIONISTA quando uso, hahahaha. Coisas que são básicas pros outros, tipo uma camiseta pink ou uma blusa vermelha 😛

Estampas? Nem pensar, chamam muita atenção. Vermelho, amarelo, pink, verde e cores vibrantes? De jeito nenhum por muitos anos. O mesmo para tamanhos mini e decotes grandes, ou qualquer coisa que eu achasse que chamaria atenção demais. Se eu morasse num lugar frio, tenho certeza que andaria só com a cabeça aparecendo, hahahaha. Mas no calor infernal de São Luís, é impossível.

É triste, mas muitas vezes eu via algo fofo numa vitrine e achava super bonitinho, mas nunca arriscaria nem experimentar. Fica bonito no manequim, não em mim. Era um pensamento recorrente. E assim peguei tédio de lojas de roupas e sapatos.

Na minha adolescência, eu adorava usar saias, tanto porque achava minhas pernas grossas bonitas, quanto porque no calor  são peças fresquinhas. Mas a quantidade de pessoas que ficava me zoando por ter pernas muito brancas, ou que queria passar a mão achando que era meia calça me aborrecia demais quando eu saía de casa. Ter estranhos na rua passando por mim e perguntando por que eu tava de meias brancas ou me mandando tomar sol (no Maranhão não é nada comum gente branca, sardenta e ruiva) era tão frequente que eu aposentei quase todas as saias tentando fugir dos constrangimentos.

Depois começou o inferno dos sapatos. As mocinhas de 15 anos sempre querem usar salto né? E eu, além de ser completamente desengonçada num salto, tenho o pé grande em relação à maioria (calço 39/40) e muito fino, logo quase nenhuma sandália que caiba no comprimento fica ajustada na magreza dos pisantes. Então abracei os tênis, rasteiras, all star, e sapatilhas com amor.

Mas sempre que tinha uma festa, começava o sofrimento de novo, de encontrar algo que servisse e que eu conseguisse me equilibrar em cima. Já disse que tenho 1 joelho bugado e os 2 tornozelos frouxos? Pois é, já torci o pé usando havaianas rasteiras, pra vocês terem noção. Logo, festas pra mim são pra ficar sentada, porque um salto de 6cm (é o mínimo que encontro nos sapatos da minha pontuação) já se torna um desafio pra caminhar do carro até a minha mesa.

E assim fui empurrando os anos e as roupas dentro do armário, sem me dar conta de que isso estava virando um problema. Quando fiquei adulta e ganhei mais peso, as coisas começaram a ficar realmente sérias, porque eu sempre saía dos provadores chorando. Sabe o que é usar uma calça jeans até ela rasgar no fundo porque não encontrava outra que sirva? Eu sei. E ela rasgou no meio do shopping. E eu de novo estava procurando outra. O problema: tenho 113cm de quadril, mas não em forma de culotes. E quando a calça entra no quadril, todo o resto dela é no dobro do meu tamanho. Isso pra não falar da maldita cintura baixa. E justamente por ter o pôpô avantajado, só uso calça escura e sem lavagens, pra não chamar atenção. E calça discreta é outro item raro no mundo dos fast fashion de jeans rasgados, bordados, estilosos, chamativos e feitos para pessoas magras e sem muitas curvas.

Sim, sou mão de vaca. Nem que tivesse, eu daria mais de R$100 num jeans, porque gente, é só um jeans. Pra mim a marca pouco importa. Tem coisas que valem mais à pena de se gastar do que jeans, sabe?

Mas veja bem, isso era na época que eu usava jeans. Cansada de levar 14 ou 15 peças pro provador e nenhuma servir direito (eu acabava comprando a que fechava, não a que eu gostava), voltei pras saias. Sim, as renegadas. Claro que soltinhas e na altura do joelho, porque num quadril tipo o meu, mini saia fica parecendo cinto apertado, uma derrota. Não curto mostrar tanto.

Atualmente, estou numa fase de sobrepeso grande, por isso perdi quase todas as roupas, que não me servem mais. Estou investigando a saúde, pois desconfio de alguns problemas, e pretendo voltar ao corpo normal de antes assim que possível. Só que enquanto isso não chega, meu guarda-roupa tá aqui me encarando, mais assustador do que nunca.

Sério, a gente cresce num mundo onde ter as pernas brancas (e o resto do corpo também) numa cidade praiana incomoda as pessoas a ponto de elas te perturbarem na rua. Onde ser diferente em qualquer aspecto já te faz ser julgado de um jeito ruim, preconceituoso.

Eu comecei meu escape pela maquiagem, desafiando todo mundo que me dizia desde criança que eu não podia usar batom vermelho por ter a boca/lábios grandes. Depois fui pros cabelos. Cortei na nuca um cabelo que era na cintura, e ouvi muito do estigma de que a mulher bonita tem que ter cabelos longos. Me apaixonei pela praticidade dos cortes médios e curtos e nunca mais meu cabelo foi grande como era antes.

Depois vieram as cores. Quando eu era criança, ser ruiva era sinônimo de apelidos de mau gosto e comentários maldosos. Ainda não tinha Marina Ruy Barbosa pra fazer as pessoas acharem ruivo uma cor bonita, e muito menos quererem o cabelo laranja. Então as coisas eram muito diferentes do que são hoje. Pra completar, minha cidade é tipicamente provinciana, onde as pessoas tem uma cabeça mais tradicional, então na infância eu já fui xingada na rua e já me perguntaram se eu era bruxa. Oi?

Ah, dane-se, eu queria um cabelo roxo e finalmente pintei em 2013. Desde que comecei a pintar nunca fui tão feliz com minha cabeleira. Sabe quando você olha no espelho e sente que achou o cabelo que sempre quis? Pois é, e eu sempre quis mudar, e depois que a coragem me conheceu, eu fiquei mais feliz com o cabelo mutante 😀

Sim, tem gente que fica zoando na rua, tem quem aponte, faça cara feia, fique rindo, ou simplesmente olhe com cara de reprovação. Claro que tem também os que elogiam 🙂 Mas nenhum dos comentários me fez querer mudar (mesmo uma oferta de emprego que exigia “cabelos normais” pro cargo), e eu notei que se sentir bem na própria pele é uma coisa maravilhosa, que eu quero mais vezes, e de mais jeitos.

Então comecei a encarar meu guarda-roupa. E o espelho grande (que mostra o corpo que eu me esforço pra esconder). Dessa vez eu vou compartilhar o exercício com vocês. Sim, porque é um exercício diário de curiosidade, de criatividade, de ousadia, de auto conhecimento.

Tentar se ver com os próprios olhos e não os olhos alheios (da família, dos amigos, dos estereótipos que a gente absorve desde criança) é bem mais difícil do que parece, porque nossa noção de beleza está impregnada de preconceitos alheios.

E não só um desejo de ano novo,  esse é um desafio que eu quero pra vida. Lembrei porque eu achava minhas pernas grossas e pálidas bonitas quando eu era mocinha (lá pelos 12 anos). Era porque elas me lembravam algodão fofinho: arrendondadas, branquinhas e macias. Me davam a sensação de ser fofa e leve por onde elas me levassem.

Quero voltar a ver as coisas como eu via antes, sem que me dissessem como deveria ser. Como quando eu era criança e pensava que era de chocolate branco com gotinhas de chocolate ao leite, porque Papai do Céu devia gostar de chocolate em gotas e dálmatas quando me criou (sou branquela com muitas pintinhas escuras pelo corpo. Muuuuitas pintinhas mesmo).

Vários cabelos ao longo dos anos, uma das minhas primeiras fotos de batom vermelho, a época em que o jeans me servia e as pernas de algodão de fora
Vários cabelos ao longo dos anos, uma das minhas primeiras fotos de batom vermelho, a época em que o jeans me servia e as pernas de algodão de fora

Pense no que você gostava e não gosta mais, no que você esconde, em como você queria ser mas nunca foi. Talvez você um dia tenha tido pernas de algodão branquinho ou gotas de chocolate no corpo e isso tenha se perdido junto com a auto estima que os anos acabam roubando da gente. Vamos resgatar juntas? 🙂

Beijos, amores ♥

PS1.: Inicialmente esse post era sobre lookbook e moda e acabou tomando este rumo aí que vocês viram, totalmente diferente 😛

PS2.: Vou postar sobre o assunto em outro texto sem tantos desabafos, hahaha. Vocês tem sugestões?

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3 comentários sobre “O problema que eu tinha no guarda-roupa (e na cabeça)

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